Engastado.



"Dois que são um, que já era dois antes de ser um." Confesso que é a concordância mais confusa e mais bonita que ouvi, porque já virou dois antes do termino da frase, porque ‘são’ é plural, mas é que eu tenho essa mania de querer que as flores durem, me esquecendo de que não existe mais raiz.

Tenho sofrido em doses altas, nessas telas finas de pelugem giz.  Eu era um sujeito um bocado agradável, era antes de enterraram meus ídolos e afastaram-me os sonhos. Privaram-me inclusive, o direito de querer estar sozinho a maior parte do tempo. Pois, malditos sejam os pássaros que não cantam durante a noite!

Sou maquina rotativa cortante, não flexível, não adequado, algo cujo criaram sem ter um encaixe. Um caso de catálise, um emaranhado de inexistência, e eu apodrecendo dentro de um caixão enferrujado; Estou na época errada, estou na época errada, estou sobrevivendo na época errada – Gritava, cheio de acúmulos. Balões na cabeça e pedras nos ombros, eu ainda não havia encontrado um tempo certo, ou Chronos havia alterado o meu tempo.

Tenho bons discos, bons livros, filmes, ideais a defender, sou de poucos amigos, nenhum vicio, [eu] talvez seja um pouco difícil, um pouco muito sozinho, talvez poético, descartável, de baixas perspectivas e poli. Escrevia sobre imoralidade e a falta dela, sobre quem sou hoje e o que queria ser amanhã. Tinha mania de diminuir-me, listas de problemas intermináveis, um brilho que imitava verniz, a harmonia do silêncio, caixas e mais caixas de convites de aniversário que me recuso a ir, muito de insônia e poucas garrafas cheias, jogos de dominó de diferentes cores, mãos fazias, frio e calculista, nenhum opositor.

Quando me contaram sobre a vida, esqueci-me de perguntar como vivê-la. Tomei um banho de porre, depois disso a vida continuou.

Um comentário:

  1. Voltei ao meu blog e decidi lembrar dos outros que lia. Esse texto me fez feliz. Me identifico com ele, justamente por não me identificar com o resto.

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