Mixórdia







- Não dá pra acreditar em você. Eu não consigo, nunca vou acreditar.
- E por quê?
- Por que você mesmo não acredita nas coisas que diz. Não seja ator. Você é péssimo nisso. 
- Você tem essa mania de achar que sabe de tudo. 
- Eu não sei, nem faço que acho, é isso que faz com que você se irrite comigo, sabe que até minha transpiração é verdadeira. Nunca fingi nada pra você.
- Também é uma péssima atriz, nunca achei que você me amasse, não me convenceu, não me enganou.

- Eu não queria, nem pensei nisso, nunca quis fazer cena pra você, era pra mim e sou péssima comigo, por que eu sempre vou saber que é um personagem e isso acaba com toda a mágica. Você também não acredita em mágica não é?
- Do que tá falando?
- De sucos. Tomei um excelente na semana passada, mas estava muito gelado e eu fiquei meio gripada, senti calafrios por dias... 
- O que quer dizer?
- Depois eu melhorei.
- E?
- Descobri que não gosto mais de sucos tão gelados. 
- Haha, essa conversa não faz o menor sentido...
- É sobre rever conceitos, só por que você me disse uma coisa a dois ou três anos atrás, não significa que tenha que pensar a mesma coisa nesse exato momento. Eu não poderia pensar na sua imutabilidade, talvez eu nem lembre das coisas que você me disse. Mas eu lembro de ter concordado comigo sobre a virada do ano e as cores dos meus esmaltes.
- Está quase me fazendo entender...
- Sabia que cada pessoa vê o vermelho de uma forma diferente?
- Eu li isso em algum lugar...
- Você já pode dizer o que pensa, já pode ver o seu vermelho. Eu não vou te condenar, nem fazer aquelas piadinhas que eu obviamente faria e que você espera. Mudei e isso foi divertido. Queria te ver sem máscara, maquiagem, carapuça. Isso também seria uma mudança. Eu ficaria feliz e beijaria o alto da sua cabeça.
- Você não muda mesmo!
- Você é quem pensa, depois dessa conversa eu já mudei.
- Quer acabar logo com isso? Termine sua lenda.
- Vejo você se rotulando, se importando demais com o que as pessoas vão dizer quando souberem dos seus temores. Seja isso que você tem atrás do fosco dos seus olhos. Do contrário, você nunca (NUNCA) vai deixar de me amar...
- (engasgo) Você é muito convencid...
- Não sou! Você sabe que não. É uma doença. Difícil explicar por que você não acredita em doenças. Posso te fazer uma pergunta?
- Talvez. 
- Como alguém que é, PURAMENTE amor, não... (olhar espantado e riso no canto da boca) eu entendo!
- Entende o quê? Termine a pergunta!
- Eu já tenho a resposta.
- E qual é?
- Eu não posso falar, a pergunta agora está com você e a resposta ou é mentira, ou é mistério. Mas você não acredita em nenhum dos dois, de forma que se tornou difícil acreditar em você. 


Inerme. *

Um comentário:

  1. "bem original,tentar se esconder em meio a nossa máscara é bem difícil..."

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