Anelo

Eu sei, ando meio desmusicada
É injustificável que meu instrumental
Tenha descompassado minha vida.
(Mesmo não sendo esse o mal da doença)
O pobre som que eu ainda fazia ao andar
O único que me sobrou depois de cantar
Incomodou tanto uma senhorinha
Que depois de uma milha andada
Fez quebrar minha sandália.
Feiticeira de uma figa.

Eu continuei em silencio
Cansada e descalça
Sentei num mato perto do meio-fio
E vi um passarinho
Que de tanto beijar a flôr
Desejei que viesse e me beijasse também
Mas não tive toda essa sorte não
Ela foi embora e nem um selinho
No ar, soltou.

Senti-me desolada
E um tanto envergonhada
Por cobrar apreço de um pobre passarinho
Mas eu só queria mesmo
Era um pouco de carinho
Nem que depois de alguns minutos
Ele fosse embora sozinho
E me deixasse ali
Com meus devaneios, fantasias
E meu amor doentio.

Tudo culpa daquele desgraçado
Que de tanto deseja-lo roubava meu folego
Embriagava-me dele e me tirava o sono
Enterrava-me viva
E me fazia perder o controle
Mas sabe, eu ainda o queria
Tanto que nem mesmo deveria
Confessar tanto querer.

Um comentário:

  1. Extremamente musical, nos rege ao cenário retratado. Simplesmente magnífico Dí! Parabéns.

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