Aquela coisa para a qual você se preparou o ano todo, ou toda uma vida. Pode ser a primeira vez na competição, ou algo que você tem feito nos últimos anos. A prova, o teste, a redenção.
Você se vestiu adequadamente, chegou cedo, observou cada espaço da sua pista, campo de batalha. Vê antigos adversários, magrelos novatos. Gente que nunca ganharia de você.
O aquecimento inicia, seu corpo está em chamas, atônito.
Você pode sentir sua própria face ruborizada, não há por quê olhar para os lados, não é o que importa.
O sol está escaldante, há uma fina camada de fervor dividindo o ar e o chão. Tem muita gente lá, te observando, torcendo
Segundos antes da largada, você se banha em água mineral, como um ator, como se já tivesse visto aquilo em algum lugar. Seu corpo é resistente.
Largada dada.
É hora do seu show. seu grande caminho repleto de obstáculos. Pula-se um, dois, dez, doze, duzentos.
Muitos dos fracos já saíram da pista, você os eliminou, corredor!
As coisas começaram a fazer sentido, a valer a pena. Há alguém tão forte quanto, colado em você, numa das última voltas. Sua garganta seca, você tem a sensação de estar correndo descalço, um dos cavaletes arranhou a parte traseira da sua coxa. e o suor salgado faz aquilo arder. Seus pés já descascaram por causa do calor, alguém lhe oferece água. Não há tempo. Só um deslize e você cai no chão depois de perder o equilíbrio, seu rosto encontra o asfalto esfoliante, um dente quebrado e arranhões do peito à testa. Não há tempo para a dor. Levante.
Você consegue, cai de joelhos e assim vai até conseguir apoio para levantar.
Nessa hora, o seu oponente te ultrapassa.
Filho da Mãe!
Você se recupera, com suor escorrendo e molhando os seus joelhos recém ralados, está perto, muito perto.
Passa a frente, com pouco ar nos pulmões e já não o enxerga; ultrapassa a linha de chegada e diminui gradualmente a velocidade, não dá mais pra aguentar!
Cai no chão, sobre os próprios joelhos, quebra.
A dor é tanta que se deita e fica lá, assando no asfalto escaldante. Não há palmas, aplausos ou medalhas. É só você, sem reflexos, trancado, sozinho, escuro. Sem homenagens, ligamentos, pele no rosto. Sem orgulho, destruído, ralado, triturado, sem motivo algum. Sem alvo.

Isso que eu chamo de um texto descritivo, rico em detalhes, possui um ritmo natural, assim como uma boa música, cadencia a pessoa a chegar no final rapidamente. O amadurecimento nas palavras é notório. uUm viva as pessoas que ainda acreditam na literatura.
ResponderExcluirFelicitaciones Nathália.
carlos felipe
Muito bom, sério. :)
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