Ela entra, o encontra
sentado no sofá, vê apenas um corpo, ele não se move, como se estivesse em
outro plano, outro planeta, ela treme, uma brisa gelada passa por traz do seu
pescoço, sente seu corpo arrepiar, observa que tem vinho na mesa, têm velas e
dois copos, tudo arrumado, não entende, pensa, pensa novamente, não sabe o que
está acontecendo, arrisca tudo, não encontra saída, teme o fim, bate a porta.
Ela então percebe que ele voltou a si, chegando próxima a ele descobre um papel
rabiscado em sua mão, olha nos seus olhos, ela desvia, ele esconde a carta,
como se estivesse envergonhado, ela pergunta:
- O que tem?
Ele não a responde, sempre
respondia. Fica nervosa, percebe que seu sistema nervoso não responde, suas
pernas ficam bambas, então vai até o quarto, percebe uma mala em cima da cama,
ela para, o tempo para, o coração ainda quer bater, precisa bater, joga a bolsa
no chão, pega a carta, abre, lê.
“Você lembra? Foi aqui que tudo
começou, era tarde, dia 22/10/2010 eu estava no bar com uns amigos, você estava
com suas amigas, ainda acho que você me olhou primeiro, rs. Então eu fui até
lá, puxei você pra dançar, eu nem sabia dançar, até hoje não sei explicar o porquê
daquilo, mas eu fui e lhe chamei, você foi com a minha cara, dançamos, quer
dizer, você dançou. Eu apenas tentei acompanhar, você me achou engraçado,
conversamos a noite toda, eu te chamei pra o meu apartamento, foi nessa cama
que transamos pela primeira vez, foi ótimo, ainda lembro-me de tudo, o vinho, a
musica, você, você estava linda, seus olhos brilhavam, acho que foi amor à
primeira vista, no meu caso foi, juro. Agora entenda, faça tudo que eu pedir,
abra o guarda-roupa, segunda porta da direita pra esquerda. Eu te amo”.
Ela chora, lembrou-se de tudo, de
cada momento, colocou a carta a seu lado, se levantou, foi até o guarda-roupa,
abriu a porta, tinha outra carta presa a seu vestido, ela arranca, lê:
“Esse foi o vestido do nosso
décimo sétimo encontro, estamos juntos a quatro meses, foram quatro meses
maravilhosos, eu te amava mais a cada dia. Fomos ao nosso restaurante
preferido, pedimos salmão como você gosta, bebemos o vinho que você gosta, pedi
pra você morar comigo, você quase engasga com o vinho, mas aceitou e no dia
seguinte, estávamos morando juntos, eu estava radiante, eu te amava a cada
momento. Agora vá até a cozinha. Te amarei eternamente”.
Ela já chora incansavelmente,
soluça, não entende nada, mas até agora tudo estava lindo, deveria estar feliz,
provavelmente aquilo seria apenas uma coisa romântica dele, como ele sempre
faz, mas dessa vez ela não está feliz, não tira da cabeça o rosto dele, quer
saber onde isso termina, então vai até a cozinha, ao lado do vinho encontra a
outra carta, ela abre, lê:
“Foi aqui nessa cozinha nossa
primeira briga, eu cheguei do trabalho, você estava uma fera, tinha me visto
almoçar com minha colega de trabalho, você jogou copos e pratos na minha direção,
nunca tinha visto você tão brava, eu tentava explicar e você não deixava, você
só gritava e chorava, eu estava ali, olhando pra você, te amando ainda mais,
você estava linda com raiva, você é linda,
e de qualquer jeito. Sempre falo isso, nunca acreditas, mas é verdade. Eu
te amo, acredita em mim? Espero que sim, só me amando pra acreditar na minha
explicação, mesmo com raiva você confiou em mim, fizemos amor como nunca, foi a
melhor briga que eu já tive, mas eu prometi não brigar mais com você e nunca
mais briguei. Você precisa me amar ainda, pra acreditar no que eu vou falar
agora. Vá até mim, sente-se na minha frente, pegue a carta que eu estarei na
mão, e leia. Sempre te amarei”
Ela agora tem certeza, certeza
que nada de bom ira acontecer, que ele fez alguma coisa, o mundo está caindo, a
corda dela está arrebentando, não quer cair, mas sabe que vai cair, ela pensa
em varias coisas, está em choque, não consegue sair do lugar, mas precisa,
arruma forças, vai até ele, percebe que a mala que estava na cama agora está ao
lado dele, agora está entendendo tudo, ela pega a carta em sua mão, ele a olha
nos olhos, as lagrimas transparecem e escorrem pelo seu rosto, ela nunca o viu
chorar, chora também, abre a carta, lê:
“Desde aquele dia, minha vida
mudou com você, aprendi o que é amar, respeitar, querer cuidar. Eu fui um homem
melhor com você, você me tornou especial, um homem de verdade, eu queria ter
filhos com você, queria casar, tinha planejado pedir você em casamento no final
do ano, tudo estava em minha cabeça, nossa nova casa, nosso cão, filhos
correndo pela sala, você fazendo nosso café da manhã, eu te abraçando, nossos
filhos nos abraçando, seriamos a família perfeita, tinha certeza disso, eu só
queria passar o resto da minha vida com você, mas eu errei, errei e tenho que
pagar, você deve está se perguntando o que é esse erro, acho desnecessário contar,
o que eu preciso contar é que eu te amo e sempre te amarei, mas não te mereço
mais, não posso viver mais ao seu lado, acho que você me perdoaria, porque eu
estou muito arrependido, mas eu nunca irei me perdoar, nunca, eu mereço viver
uma vida onde não há você, irei sofrer cada minuto da minha vida por conta do
meu erro, eu te amo, mas estou indo embora, vou ter que deixar seguir sua vida
sem mim, eu te amo, eu sempre te amarei, mas agora é hora do adeus. Amo-te”.
Ela se ajoelha e chora
insanamente, tudo aquilo passa pela cabeça dela, os filhos, o casamento, era
com ele que tudo isso aconteceria, não se imagina sem ele, não quer ter que se imaginar
sem ele, seu coração já sente a falta, coração está doendo, ela grita, grita
alto, pra todo mundo ouvir, pra todo mundo saber que a vida dela acabou agora,
percebe que ele se levantou e foi embora, ele bate a porta, ela levanta,
precisa vê-lo ainda que por uns segundos, nem que seja pelo olho magico, corre,
a porta está fechada, ele já foi embora, percebe que tem outra carta presa a
porta, ela abre, lê:
“Neste momento minha vida está
acabada, não existe a mim se não existir o nós. Eu te amarei eternamente, nunca
se esqueça disso, neste momento, eu estou de frente para você, o que nos separa
é a porta, essa porta a parti de hoje sempre estará nos separando, ela ainda
está aberta, se tiver algo a me dizer a hora é agora, mas não demore, eu tenho
que ir. Você é o amor da minha vida.”
Então abre a porta, olha nos
olhos dele, o abraça forte, como se fosse pela ultima vez, o beija, como se
fosse o ultimo beijo, ambos percebem que estão chorando, é o beijo mais triste
de suas vidas, regados a lagrima e sofrimento de ambas as partes, ela o solta,
vira, fecha a porta.
Ao entrar em seu carro, ele
percebe que em seu bolso de traz, há um volume, ele tira, é uma carta, é dela,
ele não entende, em que momento ela escreveu? Pergunta-se sem parar, não
consegue encontrar a resposta, ele abre, lê:
“Desde o inicio eu te amei, eu
sempre neguei que não te olhei, mas eu olhei sim, eu vi você entrar no bar e
pedi a minhas amigas pra entrarmos também, eu sempre estive de olho em você,
sabia que você seria o homem da minha vida, aquele encontro que você me
convidou para morarmos juntos? Eu ia te convidar também, você apenas pediu
primeiro, sabe aquela primeira e única briga, era tudo mentira, eu só queria
saber se você ainda me amava, e tive certeza que sim, eu sempre te amarei,
sempre, não vou desistir de você. Quer casar comigo?”
Ele sorri. Era a ultima coisa que
imaginava fazer neste dia. É como um dia de sol logo depois de uma tempestade,
a vida parecia estar de volta, ele não se perdoa, sabe que nunca irá se
perdoar, mas ela merece ser feliz, ele sabe disso e se é o único que pode
fazê-la feliz, então essa será sua obrigação pelo resto da vida, esse é o
castigo para seu erro, é o melhor castigo que ele poderia arrumar, ele desliga
o carro, pega a mala, e segue rumo a seu apartamento.
Pra mim esse é o teu melhor texto! Muito bem escrito, é como se além de o ter lido, eu o tivesse sentido.
ResponderExcluirParabéns, Andinho. *-*